A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva sobre Flávio Bolsonaro na eleição presidencial do Brasil energizou a oposição argentina, onde políticos buscam na campanha lições para a disputa de 2027 contra o presidente Javier Milei. Manchetes brasileiras apelidaram o resultado de “Lulazo”.
Duas horas depois da confirmação da vitória de Lula, foi criado um canal no WhatsApp chamado “Exército Peronista”, inspirado em uma iniciativa digital usada para se comunicar com apoiadores de Lula. Uma semana depois, o grupo local do Partido dos Trabalhadores da Argentina havia recebido pelo menos dez pedidos para debater a campanha e compartilhar suas lições.
“A vitória mostra a necessidade de organização e de unir esforços, tanto política quanto tecnologicamente”, afirmou Martín Lousteau, parlamentar da centrista-esquerdista União Cívica Radical. Ele descreveu o resultado como evidência de que uma sociedade mobilizada pode resistir e derrotar movimentos de direita que desconsideram a democracia.
A eleição tem um significado particular para os progressistas argentinos em meio ao que descrevem como uma guinada regional à direita. Jorge Kreyness, secretário-geral do Partido Comunista da Argentina, chamou a vitória de Lula de fonte de incentivo e disse que ela poderia sinalizar uma mudança após um período em que candidatos de direita haviam vencido muitas eleições na região.
Milei havia apoiado abertamente Flávio Bolsonaro, comparecendo ao lançamento de sua campanha em São Paulo no fim de julho e chamando Lula de “lixo socialista”. O parlamentar argentino Gustavo Fernando López disse que a vitória de Lula foi, portanto, também um grande revés político para Milei. O envolvimento do presidente argentino, argumentou Kreyness, pode ter prejudicado a campanha de Bolsonaro.
A campanha brasileira também trouxe para o debate as condições internas da Argentina. Lula confrontou Flávio sobre pobreza, desemprego e economia, enquanto apoiadores de Bolsonaro destacaram a queda da inflação durante o governo Milei. A taxa mensal de inflação da Argentina caiu de 25,5% em dezembro de 2023, quando Milei assumiu o cargo, para 1,9% em setembro, segundo os números citados no relatório. O número de empresas, contudo, caiu em mais de 30.000, a maior redução em 24 anos, segundo o monitor mensal de empresas da fundação Fundar.
As tensões entre Lula e Milei continuaram depois da eleição. O governo de Milei não reconheceu formalmente a vitória de Lula, e o porta-voz Adrian Ravier disse apenas que o resultado havia sido “registrado”. O governo também foi alvo de questionamentos de parlamentares argentinos sobre seu possível papel na suposta partida de Flávio para os Estados Unidos, o que levou a iniciativas legislativas e jurídicas para esclarecer o que o governo sabia sobre a operação.
A posição política de Milei enfraqueceu, mas as figuras da oposição continuam divididas. Uma análise do Clarín de 11 pesquisas de opinião constatou que 57% dos argentinos desaprovavam seu governo e 57,2% tinham uma opinião negativa dele. Ao mesmo tempo, diferentes líderes da oposição disputam influência, entre eles a ex-presidente Cristina Kirchner, o governador da província de Buenos Aires Axel Kicillof e o ex-candidato presidencial Sergio Massa.
López disse que, apesar dos indicadores econômicos do governo, a oposição ainda não havia se unido em torno de um candidato capaz de derrotar Milei. Ele argumentou que a vitória de Lula poderia ajudar a convencer grupos rivais a formar uma frente mais ampla, acrescentando que a extrema direita poderia ser derrotada por meio da organização política, de um programa de governo claro e da mobilização pública.
Fontes: Folha Mundo.