Sérgio Bastos, figura proeminente nos protestos habitacionais que ocupam a Praça D. João I há 25 noites consecutivas, dirigiu-se diretamente às recentes declarações do Primeiro-Ministro Luís Montenegro, que acusava os manifestantes de importar modelos de protesto violentos. Falando durante a Assembleia Popular na terça-feira à tarde, Bastos afirmou que a única coisa importada para Portugal foram as técnicas de violência policial. Ele respondeu ao apelo do Primeiro-Ministro pela não-violência com ironia, propondo que a solução para prevenir a violência é simplesmente que as autoridades parem de agredir os manifestantes.

Bastos caracterizou a situação atual não como violência por parte dos manifestantes, mas como repressão política e policial contra um movimento português genuíno e pacífico. Embora reconhecesse que a Acampada replica táticas de visibilidade de protestos noutros países, particularmente em Espanha, insistiu que nem a organização nem os seus membros se envolveram em atitudes violentas. Observou que, embora algumas situações menos pacíficas devam ser geridas, o cerne do protesto permanece não-violento. O porta-voz criticou Montenegro por demonizar os manifestantes em vez de ouvir os seus argumentos, acusando o governo de apresentar medidas ineficazes e ignorar a maioria em favor de uma minoria poderosa.

Apesar da crítica contundente, Bastos reconheceu uma vitória parcial, uma vez que o Primeiro-Ministro expressou a vontade de realizar uma reunião entre o governo e os partidos de oposição. No entanto, esclareceu que nem o Partido Socialista (PS) nem o Chega oferecem atualmente propostas que atendam suficientemente às exigências do movimento em matéria de habitação. O porta-voz sublinhou que, embora os representantes eleitos devam debater ideias, a Acampada continuará a apresentar as suas próprias reivindicações e espera ser ouvida no tempo devido. Argumentou que a afirmação do governo de consultar a população é enganadora, sugerindo em vez disso que apenas ouviram fundos imobiliários.

A assembleia também abordou questões organizacionais internas, incluindo uma discussão sobre a criação de um comité para representar o movimento em futuras reuniões com as autoridades locais ou a Presidência da República. Embora alguns membros tenham notado a existência de representantes, a maioria votou a favor da criação de um comité de representação específico para cada reunião, um tópico que será discutido mais detalhadamente em assembleias futuras. Adicionalmente, a liderança da assembleia pediu desculpa pelo fracasso na organização de uma greve geral ibérica agendada para 11 de novembro, citando a falta de condições para cumprir o período de aviso prévio obrigatório de dez dias.

A noite na praça viu um aumento da atividade após a conclusão da assembleia com a projeção do documentário "Acima das nossas possibilidades", que retrata o impacto das medidas de austeridade. A atmosfera foi brevemente interrompida por adeptos do clube de futebol italiano Napoli, que passavam pela área antes do seu jogo da Liga dos Campeões, acompanhados por uma presença policial visível. Foram emitidas recomendações de segurança aos participantes, exortando-os a fazer barulho e a filmar se testemunhassem qualquer coisa suspeita.

Fontes: Observador.