A morte de Heloise, de três anos, em Imbaú, no Paraná, destacou problemas recorrentes de segurança envolvendo balizas de futebol no Brasil. A criança morreu quando uma baliza sem fixação caiu sobre ela durante uma celebração comunitária do Dia das Crianças.
A mãe de Heloise, Casturina da Silva, disse que segurava a mão da menina e a levava até um carro quando a estrutura caiu. A família continua sem conseguir entender como a baliza desabou. Casturina afirmou que as crianças ainda brincam no local e alertou que outro acidente pode acontecer se o problema não for resolvido.
Um levantamento apresentado pelo Fantástico identificou pelo menos 107 acidentes envolvendo balizas em todo o Brasil nas últimas duas décadas. Os incidentes resultaram em 61 mortes e 34 feridos, sendo que mais de 90% das vítimas tinham até 12 anos.
Outras duas crianças morreram em incidentes semelhantes no Paraná. Um menino de sete anos morreu em fevereiro, quando uma baliza caiu sobre sua cabeça em Marquinho. Dois meses depois, Sofia Aparecida morreu após uma estrutura cair em uma quadra esportiva em Prudentópolis.
Em Peruíbe, no litoral de São Paulo, Victor Hugo, de 12 anos, sofreu ferimentos graves quando uma baliza caiu sobre ele enquanto jogava como goleiro. Ele foi intubado e colocado em coma induzido depois de sofrer sete convulsões. Sua mãe, Joice Fernandes, disse que ele continua recebendo cuidados por causa de problemas permanentes no braço e de outras consequências do acidente.
A família de Victor venceu uma ação judicial contra a prefeitura por negligência, mas, cinco anos após o incidente, ainda aguardava a indenização por meio do sistema de pagamento determinado pela Justiça do município. A advogada Selma Santos disse que o acidente poderia ter sido evitado se a baliza tivesse sido devidamente fixada.
O Brasil não tem uma norma nacional obrigatória específica que regulamente a instalação de balizas de futebol. Os requisitos variam de estado para estado. Santa Catarina não tem nenhum projeto de lei sobre o assunto, enquanto as discussões no Paraná estão paralisadas.
No Rio Grande do Sul, uma lei estadual exige que as balizas em espaços públicos e privados tenham pelo menos dois pontos de ancoragem e passem por inspeções regulares. Conhecida como Lei Marina Fallavena, ela recebeu o nome de uma menina de 11 anos que morreu quando uma baliza mal fixada caiu sobre ela. A lei prevê multas e, em casos de reincidência, a perda da autorização para o funcionamento de atividades comerciais.
Parques, clubes, condomínios, praças, escolas e escolinhas de futebol tiveram 18 meses para cumprir as regras. As inspeções exigem um laudo técnico que confirme que a instalação é segura. Segundo Luana Frasson, diretora do Departamento de Obras Públicas do estado, o custo da ancoragem depende do local e do solo, mas não ultrapassa 500 reais.
Moacyr Duarte, especialista em gestão de riscos da Universidade Federal do Rio de Janeiro, disse que crianças penduradas ou balançando nas balizas devem ser consideradas um comportamento previsível quando a segurança dos equipamentos é avaliada. Estruturas devidamente ancoradas, afirmou, devem suportar o peso e a força de crianças de até 12 anos.
Ele também explicou que o ângulo de queda de uma baliza afeta a gravidade do impacto. Quando a estrutura ultrapassa uma inclinação de 45 graus, sua aceleração aumenta e o impacto resultante pode se tornar mais violento.
A manutenção é outra preocupação. Na praça onde Victor se feriu, os equipamentos foram afetados pela corrosão relacionada ao ar marítimo, ao uso e ao vandalismo. Em Imbaú, a baliza que matou Heloise foi colocada novamente em pé e instalada diretamente no solo, que pode amolecer depois da chuva.
O proprietário do campo em Imbaú recusou uma entrevista gravada, mas disse por telefone à produção que o evento era realizado ali havia três anos. Ele atribuiu a queda à chuva intensa e aos ventos fortes, que, segundo afirmou, podem ter soltado as presilhas que prendiam a estrutura ao chão. Em Peruíbe, a prefeitura informou que substituiu a baliza enferrujada envolvida no acidente de Victor.
Após os incidentes repetidos, o deputado federal Danrlei, ex-goleiro do Grêmio, apresentou um projeto nacional para regulamentar a ancoragem de balizas em espaços públicos e privados. A proposta busca estabelecer requisitos de segurança para sua instalação e evitar novos acidentes.
Fontes: G1.