Logo no início da manhã de segunda-feira, a incerteza rodeava o acampamento de protesto pela habitação na Praça D. João I, no Porto. Um dos dois carros da PSP na praça saiu, deixando apenas um veículo. Permaneciam algumas dezenas de manifestantes, com cerca de 10 tendas; muitas pessoas já estavam dentro das tendas e a maior parte da praça estava vazia. Os manifestantes disseram que a PSP lhes tinha garantido que não iria intervir, mas agora admitem que podem desmobilizar sob pressão policial. A PSP não explicou por que razão esta noite foi diferente das anteriores, quando avisou os manifestantes para retirarem as tendas. Não tinha havido qualquer negociação formal e a situação estava calma.
A decisão de pernoitar foi tomada numa assembleia popular na noite de sábado, que também rejeitou um convite do presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte, para uma reunião na terça-feira.
Em Lisboa, a tensão marcou a noite no Rossio, com foguetes e buzinadelas. Depois de os foguetes terem sido lançados, um homem suspeito de os ter lançado foi perseguido e refugiou-se num restaurante, que fechou a porta para segurança. Um organizador disse que o homem era um agente da PSP fora de serviço. Mais tarde, a PSP identificou o homem como um gerente de 41 anos que nega ter lançado o foguete. Anteriormente, a polícia multou condutores que buzinaram em solidariedade com o protesto. Poucas pessoas permaneciam no Rossio nas primeiras horas da madrugada.
O Presidente António José Seguro está disponível para reunir-se com manifestantes dos acampamentos do Porto e de Lisboa. Quer ouvir as propostas que pretendem apresentar às autoridades políticas e discutir os acontecimentos recentes. Henrique Blanc, porta-voz do acampamento do Porto, confirmou que a Casa Civil da Presidência o tinha contactado; a proposta foi bem recebida, mas ainda tinha de ser discutida na assembleia popular. Seguro contactou também o presidente da Câmara de Lisboa, Carlos Moedas, e o presidente da Câmara do Porto, Pedro Duarte. Tinha falado antes com o primeiro-ministro, Luís Montenegro, e pedido esclarecimentos ao Governo e à Provedoria de Justiça sobre a intervenção policial nas primeiras horas de domingo. Convocou o Conselho de Estado para segunda-feira para discutir a coesão social.
O Sindicato dos Jornalistas anunciou que vai apresentar uma queixa à Provedoria de Justiça contra a PSP, procurando responsabilizar a corporação pelas agressões e intimidações a jornalistas que cobriam os protestos no Porto e em Lisboa. Condenou especificamente a agressão por agentes da PSP a um fotojornalista que cobria o protesto pela habitação no Porto.
O presidente do Chega, André Ventura, disse que as situações só surgiram devido à ausência do primeiro-ministro. Defendeu que os protestos não deviam ser uma questão de ordem pública e que os problemas decorrem da incapacidade de reação do Governo. Ventura responsabilizou Montenegro e o ministro da Administração Interna, Luís Neves, e lamentou que os agentes da polícia estejam a sofrer com o descontentamento público causado pelo aumento do custo de vida. Anunciou um pacote de emergência para a habitação.
O LIVRE apelou à demissão do ministro da Administração Interna e disse que se juntaria ao pedido do PCP de um debate parlamentar urgente. A co-porta-voz Isabel Mendes Lopes afirmou que o ministro não tinha condições para se manter no cargo, embora o partido não costume exigir demissões. O LIVRE anunciou também que levaria o caso ao Comissário para os Direitos Humanos do Conselho da Europa e ao Alto-Comissário das Nações Unidas para os Direitos Humanos, argumentando que houve graves violações de direitos protegidos pela Convenção Europeia dos Direitos Humanos e pelo Pacto Internacional sobre os Direitos Civis e Políticos. O partido condenou a ação policial contra protestos pacíficos pela habitação e descreveu as novas intervenções policiais como profundamente preocupantes.
Fontes: Observador.