O movimento 26S, que levou milhares de pessoas à Puerta del Sol, em Madri, por mais de um mês, está passando por uma grande reorganização. Os comitês que administravam a logística do acampamento começaram a sair na sexta-feira, depois de receberem uma notificação da Delegação do Governo pedindo que se retirassem por motivos de segurança. O anúncio oficial de que estavam encerrando suas atividades foi feito no sábado, com os coordenadores apoiando a dissolução do acampamento.

Alguns manifestantes se opuseram a essa decisão e permaneceram na praça. Eles afirmam não pertencer a nenhuma organização com siglas políticas formais e estão tentando criar uma associação para apoiar as pessoas sem moradia que vivem no acampamento. A defesa dos direitos das pessoas sem recursos tornou-se seu principal foco.

Representantes desse grupo leram um manifesto na segunda-feira. O documento reafirmou reivindicações apresentadas pelo movimento desde seu início, especialmente relacionadas à moradia, e descreveu o acampamento como uma comunidade construída em torno do cuidado, do apoio emocional e da solidariedade coletiva. No entanto, não deixou claro se os manifestantes pretendiam deixar ou permanecer em Sol.

Juanlu, porta-voz dos manifestantes, afirmou que o manifesto foi assinado pelo “povo”. Ele também declarou que o grupo permaneceria na praça naquele dia, embora tenha se recusado a fornecer mais detalhes sobre seus planos. O documento sugeria que Sol poderia se tornar um centro de assembleias e organização após o acampamento, ao mesmo tempo que enfatizava que o movimento continuaria se espalhando pelos bairros e por outras áreas.

O acampamento era inicialmente coordenado por meio de comitês que funcionavam como departamentos logísticos. Um deles, conhecido como “Pulmón”, distribuía comida a muitas das pessoas que permaneciam no local. Depois que os comitês se dissolveram, a alternativa proposta foi que as cerca de dez seções do acampamento passassem a se administrar de forma independente. Ex-coordenadores questionaram se esse modelo é viável devido às diferentes circunstâncias das pessoas que dormem na praça, incluindo aquelas com problemas de saúde mental.

Anna A., uma ex-integrante de 30 anos de um dos comitês, que passava grande parte do tempo trabalhando no Pulmón, deixou o acampamento na sexta-feira. Ela afirmou que a última notificação da Delegação do Governo levou os coordenadores a acreditar que permanecer ali poderia ser ilegal e expô-los a uma remoção forçada. Também disse que os organizadores haviam gradualmente deixado de desempenhar um papel político para prestar assistência social para a qual não tinham formação.

Segundo Anna, o perfil do acampamento mudou ao longo do tempo. Ele começou com uma forte presença de jovens estudantes universitários politicamente engajados, mas depois passou a incluir mais pessoas sem moradia e migrantes sem recursos que vieram principalmente por necessidade. Quando a praça ficou lotada, segundo relatos, foi dada prioridade a pessoas em situação de exclusão social.

A ex-coordenadora disse que os comitês haviam estudado um plano gradual e ordenado para desmontar o acampamento, mas aqueles que permaneceram não o aceitaram. Ela também mencionou o caso de Hassan, um homem marroquino sem documentos legais para quem os comitês haviam comprado uma passagem de avião para Bruxelas, para que pudesse viajar com um parente. Anna advertiu que uma remoção forçada poderia colocá-lo em risco de detenção e deportação.

Fontes: El País Portada.