María Corina Machado retornou à Venezuela, dizendo que voltou “para concluir a tarefa” e apresentar uma transição para a democracia como uma possibilidade realista. Durante sua primeira semana no país, sua presença e suas declarações públicas geraram otimismo em amplos setores da sociedade e levaram o governo da presidente interina Delcy Rodríguez a reafirmar sua agenda de reformas, suas promessas econômicas e seu compromisso com a abertura política.
Rodríguez fez uma mensagem televisionada pouco antes de Machado realizar uma coletiva de imprensa, apresentando-se como parte do processo de transição. Ela disse que estava transformando o sistema por dentro, afirmou estar preparada para liderar a transição e prometeu eleições constitucionais organizadas por uma autoridade eleitoral renovada e acompanhadas pela comunidade internacional. Ela também pediu para ser julgada por suas ações.
Os acontecimentos da semana marcaram uma ruptura com as décadas em que o chavismo controlou a narrativa política da Venezuela. Apesar das restrições contínuas impostas a Machado nos meios de comunicação de massa do país, a líder da oposição definiu o tom e o conteúdo do debate público, parecendo ter tomado a iniciativa em relação ao governo.
O analista político e historiador Pedro Benítez descreveu o discurso atual do governo como uma tentativa de se assemelhar à linguagem política de Machado, ao mesmo tempo em que questionou se suas promessas de democracia e restauração são sinceras. Em sua opinião, um compromisso genuíno com a transição envolveria conversas diretas entre o governo e Machado sobre os termos da mudança.
Benítez comparou a situação atual à campanha presidencial de 2012, quando Hugo Chávez dominava a narrativa política e Henrique Capriles buscava oferecer uma alternativa moderada. O analista disse que as posições agora parecem invertidas, com Rodríguez seguindo a liderança de Machado.
A mudança ocorre em meio à insatisfação generalizada com a situação atual da Venezuela e com a reciclagem de promessas políticas. Segundo o artigo, o governo chavista buscou, durante 2026, reforçar seu controle sobre o poder por meio de uma aliança com os Estados Unidos que proporciona assistência econômica e estabilidade.
Jesús Seguías, diretor da Dataincorp, argumentou que o projeto ideológico chavista original associado a Hugo Chávez perdeu força política e está passando por um processo de conversão. Ele disse que as reformas deveriam ter sido realizadas voluntariamente, mas as estruturas internas de poder dificultaram isso.
O sociólogo e colunista Tulio Hernández afirmou que o retorno de Machado acelerou uma transição que anteriormente avançava lentamente. Ele descreveu sua chegada, após uma longa ausência imposta, como um acontecimento que gerou uma reação popular incomum e expôs o que chamou de fragilidade crescente do poder do governo.
Hernández também apontou mudanças na linguagem utilizada por outros atores importantes. Ele citou declarações atribuídas a Marco Rubio pedindo eleições o mais rápido possível, potencialmente em 2027, assim como as referências públicas de Rodríguez à liberdade de mercado, às garantias constitucionais, à transparência institucional e a um governo civil. Ele também considerou a decisão de Diosdado Cabello de deixar de usar uniformes militares uma mudança simbólica significativa.
Seguías, apesar de suas críticas habituais a Machado, disse que ela atualmente mantém a conexão emocional mais forte com as massas venezuelanas. Ele atribuiu seu retorno à adesão dela aos acordos promovidos pelos Estados Unidos, à decisão de respeitar as negociações com o chavismo e ao apoio ao plano de três fases do secretário de Estado Marco Rubio.
Fontes: El País Portada.