Protestos eclodiram em toda a Síria no mês passado, enquanto cidadãos queimavam pneus e bloqueavam estradas em fúria devido a um novo aumento nos preços dos combustíveis. Isso marcou a maior manifestação de descontentamento público desde que o presidente Ahmed al-Sharaa assumiu o poder há dois anos, após a destituição de Bashar al-Assad e o fim de cinco décadas do governo de sua família. Embora muitos sírios inicialmente esperassem melhorias rápidas após celebrar suas novas liberdades, a realidade econômica deteriorou-se em vez disso para uma parcela significativa da população.
A decisão do governo de cortar subsídios de longa data como parte de um esforço de austeridade desencadeou um aumento acentuado no custo de bens essenciais. O preço do pão, um alimento básico, aumentou dez vezes, enquanto os custos de eletricidade dispararam em várias centenas de por cento para alguns lares. Os preços dos combustíveis foram alinhados com as médias internacionais, colocando pressão adicional sobre os setores agrícola e de transporte. Embora as autoridades tenham ajustado os salários do setor público e as pensões para contrapor esses aumentos, o efeito foi anulado pela inflação contínua.
Relatos pessoais dos subúrbios de Damasco ilustram a gravidade da situação. Fatima Saleh Eid, uma faxineira de 50 anos, relatou que sua família não pode mais pagar carne ou frango, dependendo em vez disso de vegetais caros. Seu marido recentemente conseguiu emprego em uma fábrica de cerâmica após um ano de desemprego, uma raridade em um ambiente onde muitos homens se reúnem diariamente esperando por trabalho diário. Marwan Bashour, um pensionista de 68 anos que ganha o salário mínimo do setor público de aproximadamente US$ 90 mensais, afirmou que sua renda é insuficiente. Ele foi forçado a vender itens domésticos e móveis para fazer as pontas se encontrarem, observando que a ajuda de agências internacionais também secou devido aos cortes de financiamento.
A tensão econômica é agravada por fatores externos, incluindo o impacto da guerra EUA-Irã nos mercados de energia, que o governo citou como uma razão parcial para o aumento dos preços dos combustíveis. Nabil al-Remhein, um pensionista de 63 anos cujos quatro filhos adultos estão desempregados, descreveu a situação de sua família como trágica, sobrevivendo com apenas uma refeição por dia. Para evitar contas altas de eletricidade, sua casa desliga luzes e geladeiras por horas todos os dias, mas sua conta mais recente ainda consumiu um terço de sua renda.
Especialistas alertam que a crise representa um perigo significativo para o novo governo. O Dr. Haid Haid, da Chatham House, observou que, embora o legado do regime anterior e a falta de recursos sejam fatores, as políticas atuais que movem a Síria em direção a uma economia de mercado livre falharam em levar em conta seu impacto sobre os cidadãos. Samir Aita, economista do Círculo de Economistas Árabes, descreveu a situação como insustentável, temendo o caos se as políticas não mudarem. Apesar desses desafios, o presidente Sharaa alcançou algumas vitórias diplomáticas, incluindo o levantamento das sanções internacionais e a remoção da Síria da lista de patrocinadores estatais do terrorismo dos EUA. No entanto, a recuperação econômica real permanece elusiva em um país onde os custos de reconstrução são estimados em US$ 216 bilhões pelo Banco Mundial, deixando muitas famílias vivendo em edifícios parcialmente destruídos.
Fontes: BBC News World.