O escritor português Gonçalo M. Tavares, nascido em Luanda em 1970, recebe o prémio Formentor de las Letras. Soube do galardão enquanto lia ou escrevia, com um livro na mão, e começou logo a tomar notas como faz diariamente. Descreveu o reconhecimento como um dos mais importantes da sua carreira e aproveitou a ocasião para alertar sobre o rumo do pensamento contemporâneo.
Tavares afirmou que a sociedade está perto de 'abdicar do pensamento' e descreveu a inteligência artificial como a mais recente etapa de uma trajetória destrutiva que antecede a tecnologia, incluindo telemóveis e outras distrações. Disse que evita as redes sociais porque estas o absorveriam, e argumentou que a IA opera no mesmo princípio a um nível superior: se as pessoas deixarem de pensar dia após dia e delegarem a tarefa numa máquina, perderão a capacidade de pensar. Chamou ao risco o de se tornarem 'tetraplégicos intelectuais'. Acrescentou que era bom em matemática, mas que agora não saberia como abordar problemas que conseguia resolver quando era jovem.
Deixou a matemática e o futebol, onde tinha considerado seguir uma carreira profissional, pela literatura. Diz que mantém a disciplina que aprendeu no desporto: em criança gostava de jogar à chuva e ao vento, adoecia com frequência e aprendeu resistência e força de vontade, qualidades que afirma faltarem à sociedade. Escreve por instinto, por vezes produzindo até 20 páginas numa manhã sem parar, e revê a matéria-prima um, dois ou cinco anos depois. Muitos dos seus livros só são publicados pelo menos cinco anos depois de serem escritos.
O seu romance O Fim dos Estados Unidos da América tem lançamento previsto em espanhol em 2027 pela Seix Barral. Escreveu-o em 2019 e diz que antecipou a Covid-19, bem como uma divisão entre ricos e pobres nos Estados Unidos e a deriva do país em direção à guerra civil. Disse que só a última dessas coisas não aconteceu, e que não está longe. Tavares argumentou que não é preciso ser um oráculo para perceber que coisas terríveis estão a chegar, e que a arte, não só a literatura, pode detetar esses finais. Disse que não considera o livro totalmente pessimista porque recorre ao humor.
O mais recente dos seus livros traduzidos para espanhol é Las botas de Mussolini. Escolheu o calçado de Mussolini porque as botas desapareceram após a morte do ditador; eram especiais, disse, porque Mussolini era baixo e elas faziam-no parecer mais alto. Tavares imagina que as botas estão agora em alguma sala do mundo, a vibrar por novos pés. Disse que o fascismo está a regressar sem vergonha. O livro é a primeira pedra de um projeto que chama Historias fragmentadas del mundo, que regressa ao século XX para mostrar como guerras, pandemias e fascismo se repetem. Escreveu-o em verso, dizendo que diferentes formas de escrita chegam a pontos diferentes e que o ritmo o ajudou a abordar a violência histórica.
Na narrativa, a sua mais recente obra traduzida para espanhol é Mateo perdió el empleo. Começa com um homem desempregado a responder a um anúncio de emprego. Tavares disse que o elevado desemprego esteve na base de muitos dos desastres do século XX, incluindo quando Hitler ganhou eleições, e que as tensões violentas não estão separadas da economia. O protagonista, há muito tempo sem trabalho, aceitará qualquer emprego. Tavares alertou que dizer sim a tudo num estado de desespero é perigoso: uma pessoa a afogar-se agarrará a primeira boia, independentemente de esta ser enviada por um salva-vidas ou por um fascista.
Disse que a história se repete. No século XX, o crash de 1929 ajudou a que tudo entrasse em colapso, e teme 2029, embora tenha reconhecido que as datas não precisam de ser exatas. Vê a história como cíclica e alertou que a IA, que já participa em decisões políticas, estará envolvida desta vez. Na cerimónia de entrega do prémio no histórico Hotel Formentor, disse que a escrita deve ser entendida como uma forma de deixar vestígios que permitam às pessoas orientar-se num mundo perigoso. Descreveu a leitura como uma loucura coletiva em que as pessoas criam imagens na cabeça a partir de marcas numa página, mas disse que nenhuma é louca porque, quando muitos estão loucos, nenhum está. 'Somos demasiados com esta loucura mas, felizmente, não queremos formar um exército', afirmou.
Fontes: La Vanguardia.