Imagens anteriormente não divulgadas do julgamento de Fernando Sastre contêm mais de 10 horas de depoimentos de 11 pessoas e destacam versões conflitantes sobre o que aconteceu depois que seu Porsche bateu no carro do motorista de aplicativo Ornaldo da Silva Viana.
Sastre foi condenado na quinta-feira e sentenciado a 17 anos, um mês e 10 dias de prisão. O tribunal o considerou culpado de homicídio qualificado com dolo eventual, um conceito jurídico aplicado quando uma pessoa assume o risco de causar uma morte.
As testemunhas deram versões diferentes sobre as tentativas de prestar assistência e sobre a saída de Sastre do local do acidente. Uma pessoa que se aproximou dele disse que o empresário pediu que fosse embora e ficasse em silêncio quando lhe perguntou se estava bem. Sastre negou ter feito esse comentário durante o julgamento.
Outro ponto controverso dizia respeito a uma suposta ida ao hospital. A mãe de Sastre, Daniela Cristina de Medeiros, pediu à polícia autorização para levá-lo a uma unidade médica para fazer um exame. No entanto, os dois voltaram para casa em vez de ir ao Hospital São Luiz. Sastre disse que sua mãe lhe deu medicamentos e que ele adormeceu em um sofá.
Durante seu depoimento, Sastre reconheceu pela primeira vez que havia consumido álcool na noite do acidente, ocorrido em 30 de março de 2024. Ele disse que tinha ido a um restaurante com sua namorada, Giovanna, e os amigos Marcos Vinícius Machado Rocha e Juliana de Toledo Simões. Depois, o grupo foi a uma casa de pôquer, onde havia comida e bebidas disponíveis até depois das 2h.
Juliana disse ter percebido que Sastre parecia alterado quando saíram e confirmou que os amigos discutiram porque não queriam que ele dirigisse. Marcos também disse que Sastre decidiu assumir o volante. Os amigos viajaram em carros separados, com Marcos no Porsche e Giovanna e Juliana no outro veículo.
Sastre disse que se lembrava de ver um carro à sua frente e que, depois disso, não tinha mais memória até a colisão. Seu Porsche atingiu o veículo dirigido por Ornaldo, um motorista de aplicativo de 52 anos que voltava para casa depois do trabalho.
As testemunhas disseram que as pessoas no local tentaram ajudar Ornaldo e que alguns indivíduos pareciam estar tentando ir embora. Uma testemunha afirmou que foi preciso segurar os envolvidos para impedi-los de sair. Outra disse que a mãe de Sastre chegou pouco depois e tentou retirá-lo da área. Mais tarde, a polícia o liberou após coletar seus dados.
O promotor Rodolfo Morais argumentou que a defesa havia apresentado várias contradições. Ele disse que um perito da defesa contestou defeitos no veículo identificados pelo perito da família, apesar da posição da Porsche sobre o assunto. Morais também afirmou que um vídeo enfraquecia os argumentos de que não havia provas suficientes de que Sastre havia bebido.
Sastre não fez o teste do bafômetro no local do acidente. Os policiais envolvidos no incidente enfrentam processos administrativos. O promotor disse, no entanto, que o teste do bafômetro não era a única prova possível do consumo de álcool. As testemunhas descreveram Sastre como instável e disseram que sua fala estava arrastada, enquanto Marcos confirmou que todos do grupo haviam consumido álcool. A conta do restaurante registrava oito drinques, uma caipirinha e duas águas.
A velocidade do Porsche também foi contestada. Uma perícia inicial estimou que o veículo trafegava a quase 115 km/h no momento da colisão. Depois que Sastre contestou o resultado, uma segunda perícia estimou uma velocidade ainda maior, de 136 km/h.
Ornaldo morreu apesar da assistência imediata e dos esforços de resgate médico. Antes do veredicto, seu filho Lucas Morais da Silva dirigiu-se ao júri e pediu uma sentença que refletisse a gravidade do caso.
O Ministério Público disse que recorreria na tentativa de aumentar a pena. A defesa de Sastre afirmou que recebeu a decisão com tranquilidade, mas discordou do resultado e também recorreria da condenação.
Fontes: G1.