O WhatsApp tornou-se a principal ferramenta digital de organização da esquerda durante o segundo turno presidencial brasileiro, desafiando as plataformas tradicionalmente associadas à direita radical do país. Um canal chamado “Exército de Lula”, criado pelo estrategista digital de esquerda e deputado de Minas Gerais André Janones, teria transformado cerca de 10 milhões de usuários em apoiadores ativos de Luiz Inácio Lula da Silva.
A campanha marcou uma mudança significativa na disputa política on-line no Brasil. A especialista em política digital Leticia Cesarino, da Universidade Federal de Santa Catarina, descreveu o episódio como a primeira vez que o campo progressista alcançou a extrema direita e, ao mesmo tempo, construiu seu próprio ecossistema digital diversificado, criativo e mobilizado.
O Brasil é um importante campo de testes para estratégias políticas on-line. Os usuários passam, em média, 29 horas por semana nas redes sociais, 60% acima da média global, enquanto Instagram e WhatsApp respondem por volumes particularmente grandes de tráfego. Desde então, Janones foi convidado para ir à Espanha e ao México discutir a campanha brasileira e formas de enfrentar a extrema direita on-line.
O movimento de Bolsonaro há muito mantinha uma vantagem nas batalhas digitais do país. A campanha de Jair Bolsonaro em 2018 foi pioneira na rápida disseminação de informações falsas por meio do Instagram, Facebook, TikTok e YouTube. Em 2022, apesar da derrota apertada de Bolsonaro, seu chamado gabinete digital do ódio continuou a produzir resultados fortes, levando observadores a esperar outra vitória da direita na arena on-line.
Essa expectativa foi reforçada pela disseminação mais ampla da política ao estilo de Trump pelo hemisfério. Operadores digitais sediados em Miami ajudaram a desenvolver estratégias e plataformas ligadas a Brad Pascale, que comandou a comunicação da campanha de Donald Trump em 2016. Ferramentas como Eyes Over e Campaign Nucleus foram posteriormente associadas ao consultor argentino Fernando Cerimedo e usadas em campanhas na Bolívia, em Honduras e na Colômbia.
No Brasil, Cerimedo criou vínculos com Eduardo Bolsonaro e esteve entre os primeiros a disseminar a alegação, por meio de algoritmos simpáticos e redes de bots, de que a vitória de Lula em 2022 havia sido fraudulenta. A alegação contribuiu para a atmosfera que antecedeu uma tentativa de golpe. A prisão de Cerimedo na Bolívia, em agosto, sob acusação de assassinar sua namorada, interrompeu esses planos, mas outro consultor argentino, Andy Rivas, continuou ativo. Eduardo Gamarra, da Universidade Internacional da Flórida, descreveu Rivas como assessor de Flávio Bolsonaro e disse que ele era estreitamente ligado a Pascale.
Durante o primeiro turno, a campanha de Flávio Bolsonaro teve o desempenho esperado na disputa nas redes sociais. Um grupo de influenciadores, incluindo jovens figuras evangélicas como Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, usou seus milhões de seguidores no Instagram para disseminar alegações falsas e ataques. Segundo Cesarino, essas táticas atraíram eleitores por meio do ressentimento, do fanatismo e da raiva, incentivando as pessoas a se juntarem passivamente a multidões digitais ao seguir figuras influentes.
O equilíbrio começou a mudar quando Janones entrou na campanha e começou a recrutar apoiadores pelo WhatsApp. Mensagens como “Urgente, pessoal! Lula está chamando todos os soldados!” eram transmitidas em um tom autoritário, mas bem-humorado. Redes progressistas também divulgaram vídeos que mostravam jovens acordando e imediatamente começando a recrutar mais apoiadores depois de ouvir a voz de Janones em seus telefones.
A característica central da estratégia era sua tentativa de contornar os algoritmos de recomendação. A ex-candidata à vice-presidência Manuela d’Ávila explicou que o conteúdo no WhatsApp é distribuído em grande medida por pessoas, e não por sistemas automatizados de recomendação. Os usuários criam grupos, compartilham material com outros grupos, discutem-no e se organizam diretamente. Nesse sentido, o canal de Janones evitou a lógica de distribuição que rege Instagram, Facebook e YouTube.
O esforço on-line desenvolveu-se paralelamente a grandes manifestações de rua organizadas após a derrota de Lula no primeiro turno. Milhares de estudantes da Universidade Federal Fluminense reuniram-se primeiro na praia de Icaraí, em Niterói. No dia seguinte, cerca de meio milhão de manifestantes contrários a Bolsonaro, principalmente jovens, marcharam pela Avenida Paulista, em São Paulo, enquanto outros eventos pró-Lula aconteciam no Rio de Janeiro, no Recife e em outros lugares.
Essas manifestações ajudaram a dar energia à campanha on-line e a acelerar o recrutamento para o “Exército de Lula”. Mayra Goulart, da Universidade Federal Fluminense, disse que as redes sociais ampliaram o alcance e a cobertura dos eventos que aconteciam nas ruas.
Fontes: La Vanguardia.