A questão central em torno da tragédia ferroviária de alta velocidade em Urda diz respeito aos 17 minutos durante os quais o centro de controlo da Adif em Atocha falhou em detetar que um comboio AVE se dirigia diretamente para uma colisão. À medida que as operações de resgate continuavam e o número de mortos subia para 69, pessoal de emergência, vítimas e famílias lutaram para compreender o que ocorreu durante este período crítico, que agora será o ponto de viragem da investigação oficial.

O incidente desenrolou-se na linha Madrid-Sevilha, a única rota de alta velocidade ainda operando sob o sistema de comunicação LZB. Este sistema, inaugurado em 1992, monitoriza as condições de circulação e pode ordenar travagens de emergência se os limites de velocidade seguros forem excedidos. No entanto, o troço entre Urda e localidades como Malagón ou Yeles sofreu pelo menos nove falhas de sinalização desde 2024, com dois incidentes este ano ligados ao roubo de cobre.

A sequência de eventos começou antes das 08:31, quando um AVE transportando 397 passageiros foi forçado a parar devido a uma falha no sistema. O condutor contactou o centro de controlo em Madrid, que atribuiu o problema a uma avaria do sistema na zona de Urda. Às 08:36, após instruir o condutor para reiniciar o sistema, os controladores autorizaram o comboio a retomar a velocidade normal. Minutos depois, às 08:41, o condutor de um comboio Iryo localizado apenas a 25 quilómetros de distância relatou estar detido na entrada de Urda devido a uma perda de transmissão enquanto operava sob o LZB. Este condutor recebeu instruções idênticas para desligar, religar e retomar a viagem normal.

Às 08:48, o condutor do Iryo contactou novamente o controlo, afirmando que o comboio não conseguia reiniciar o sistema LZB e permanecia parado antes do sinal de entrada. Desconhecendo que o AVE se aproximava a velocidade total, o condutor explicou o problema de imobilização. Estas comunicações destacam avisos anteriores feitos por Fabricio Favara, CEO da Iryo, durante uma investigação sobre o acidente de Adamuz. Favara havia descrito o sistema LZB como "seguro mas bastante antigo", notando que os comboios da sua empresa enfrentavam dificuldades significativas para se reconectar após uma falha, permanecendo frequentemente imóveis por períodos prolongados.

Gravações de áudio da sala de controlo da Adif revelam um senso de desorganização, mas nenhuma ação decisiva para parar o AVE ou prevenir a colisão. A investigação deslocou agora o foco do local do acidente para a sala de controlo em Atocha. Uma unidade da Polícia Judicial da Guarda Civil, apoiada pelo Ministério Público, interrogou o controlador e outros dois membros da equipa presentes na altura. O controlador testou negativo para álcool e drogas, embora esta tenha sido uma entrevista preliminar antes de lhe ser concedido o estatuto de arguido.

O Primeiro-Ministro Pedro Sánchez comprometeu-se a esclarecer cada detalhe da tragédia para fornecer respostas às famílias das vítimas e reforçar as medidas de segurança. Isto alinha-se com descobertas anteriores da Comissão de Investigação de Acidentes Ferroviários (CIAF), que notou há dois anos que o erro humano representava uma alta probabilidade em incidentes semelhantes. A CIAF enfatizou que a única barreira eficaz contra a colisão era o gestor de circulação verificar visualmente que a via estava livre, uma medida suscetível a falha devido à sua dependência do fator humano.

No meio da investigação técnica, as famílias enfrentam uma incerteza imensa. A Guarda Civil recebeu 64 relatos de pessoas desaparecidas, com algumas potenciais duplicações. Os familiares reuniram-se na Residência Sacerdotal, onde muitos aguardaram notícias enquanto lidavam com desinformação. O Centro de Integração de Dados (CID) emitiu um aviso relativamente a mensagens SMS fraudulentas que identificavam falsamente corpos ou alegavam mortes, sublinhando que a identificação oficial é conduzida apenas presencialmente por agentes das forças armadas.

Os esforços de identificação começaram, com José Manuel Chacón, um agente da Guarda Civil de 31 anos de Sevilha, sendo um dos primeiros identificados graças ao seu ADN já estar registado. Pelo contrário, casos como o de Marisa Manchado, uma residente de Madrid de 70 anos, apresentam desafios, pois o seu filho adotivo não pôde fornecer amostras biológicas para comparação. À medida que as famílias recebem notícias devastadoras, o foco permanece em compreender por que nenhum alerta foi emitido durante os 17 minutos em que o AVE viajou na direção do comboio Iryo imobilizado.

Fontes: La Vanguardia.